Comunicação

16 de outubro de 2012 | 00:00

As maneiras (im)postas de ser na contemporaneidade: sexualidades “desviantes” no contexto escolar

A partir de algumas leituras iniciantes (rasas), sobre campos teóricos da identidade, linguagem, sexualidade e educação, vieram-me à reflexão alguns pontos que carecem ser discutidos nesse artigo. Necessitam ser discutidos, tendo em vista que a escola é produtora de sujeitos e discursos, sendo importante para a emancipação social (ou não) de quem transita por ela. Os pontos abordados brevemente ao longo dessa escrita são: a masculinidade hegemônica, os binarismos “hierarquizantes” das identidades no contexto social e os aspectos “biologizantes” e higienista na abordagem escolar da sexualidade.

Apropriando-me do discurso de um pesquisador e linguista da UFRJ, Luiz Paulo da Moita Lopes, penso que “é possível problematizar as maneiras de quem podemos ser e de quem seremos nos espaços escolares na contemporaneidade”. Ora, é nesse sentido que anseio compreender sobre as maneiras discursivamente construídas nos espaços escolares sobre a diversidade sexual. Percebe-se na atualidade uma invisibilidade no contexto escolar referente às identidades afetivo-sexuais que insurge num silenciamento por parte de alguns professores, esse silêncio corrobora um contexto educativo marcado por uma hetenormatividade pautada pelos binarismos que privilegiam alguns e excluem outros. Nesse contexto, percebemos ainda o “gênero masculino genérico” nos contextos discursivos e pedagógicos de nossas escolas, só para ilustrar, são algumas vozes que se cruzam: “atenção meninos prestem atenção na aula”, “bom dia meninos, tenho de dar um recado”, “meninos fiquem na fila, agora!”. Esses são discursos genericamente masculinos, propagados de forma naturalizada, colocando todos/as em uma maneira única de ser nos espaços sociais, as alunas são também consideradas “meninos” nessas vozes. Compreendemos que há ainda, uma hierarquização do que é “ser masculino” e “ser feminino” dentro dos muros da escola. Intui-se que nos espaços intramuros, os/as alunos/as são despidos de suas identidades e sexualidades, na medida em que são enunciados discursos hierarquizadores e controladores, ou seja, o/a discente deixa a sua sexualidade do lado de fora da escola (para ser aceito) e negocia o “jeito de ser” esperado pela normatividade imposta. 

Ao se pensar em “masculino” e “feminino”, se faz importante pensar nas dicotomias que se ancoram na lógica perversa dos binarismos. Nessa perspectiva, o primeiro é sempre o superior, o “normal”, o permitido, o aceito, o reconhecido e enaltecido na/pela sociedade. O segundo é o inferior, o “anormal”, o “estranho”, o “alienígena”, o “monstro”. Sendo assim, o/a estudante passa a ser a “coisa” que tem a sua sexualidade “descrita, regulada, governada e não tolerada” nos ambientes em que transita. Diante disso, percebem-se no contexto da escola, discursos fundamentados pelas noções da masculinidade hegemônica, vieses higienistas e biologizantes. Convém observar que professores de distintas áreas podem ao não estarem atentos aos novos arranjos sociais, reproduzirem uma educação alienante nos espaços em que atuam anulando recintos democráticos de reflexão. É possível perceber ainda, a existência de diversas práticas pedagógicas nas escolas que naturalizam discursos, e que promovem uma “amputação simbólica” de direitos daqueles/as que não se enquadram no que essa instituição ou a sociedade exige, (a escola reproduz o que a sociedade é do lado de fora). Diante disso, faz-se importante mencionar algumas práticas existentes nas estâncias escolares que favorecem a exclusão: tratar da sexualidade no viés biologizante e higienista, trazendo nos discursos sobre sexualidade, a tônica das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e a prevenção da gravidez, esquecendo-se dos aspectos e sensações de prazer que envolve a sexualidade, portanto, é uma abordagem limitadora e repressora que constrói compreensões de cunho reprodutivo-sexual, pois, o sexo biológico é a tônica dessa abordagem.

É importante se atentar para as noções construídas pela cultura do que é ser masculino e feminino, pois, através de suas crenças e valores, um profissional da educação poderá pensar que um/a aluno/a homossexual, travesti, transexual ou uma aluna lésbica não são “aptos” a participarem dos jogos que envolvem práticas lúdicas reconhecidas e legitimadas acerca do que é masculino e/ou feminino. Na sociedade tudo aquilo que contraria a norma, passa a ser concebido como “anormal” e nas identidades e sexualidades, isso não seria diferente. Enunciados são elicitados em sala de aula homogeneizando meninas e meninos, sem o devido questionamento, pois que essa prática está naturalizada nas interações sociais. Portanto, questiona-se: que escola é essa norteada por discursos da inclusão, que favorece a exclusão através das maneiras de ser de seus alunos/as? Essa instituição não deveria ser um ambiente promotor da cidadania, agenciando espaços para problematizações sobre os novos arranjos sociais que insurgem na contemporaneidade? A escola não deveria ser um lugar para emancipação social? Respeitar a diversidade não seria pensar que todos devem ter os mesmos direitos e acesso à educação?  Que escola é essa que discrimina o diferente daquilo que ela quer e/ou aceita como o normal?

Como educador, (re) afirmo que é urgente que se abra espaços para discussões acerca da diversidade nos contextos escolares, pois, não se podem negligenciar as oportunidades de debates sobre as complexidades que permeiam as práticas sociais e pedagógicas. Entende-se que a diversidade às vezes é lembrada somente em semanas pedagógicas em que na maioria das vezes oferece uma palestra e depois, é esquecida ao longo do ano. Isso é uma ação improfícua, pois, não promove a transformação e a reflexão, torna-se somente uma “data comemorativa” no calendário pedagógico da escola. Problematizar sobre sexualidades é primeiramente “munir-se de conhecimento”, e não (re) produzir nos ambientes escolares os tantos “achismos”, que em vez de descontruir binarismos e masculinidades hegemônicas, só favorecem a reprodução e a exclusão daquele/a que é diferente do que a normatividade legitima. Debater sobre temas complexos pressupõe estudos, discussões e abertura por parte da escola, dos professores e de toda a sociedade.

Portanto, pensar educação é compreender a dinâmica social como algo mutável, em intensa transformação, sempre em movimento. As identidades são “híbridas, cambiantes, negociáveis, múltiplas e contraditórias”. Não há sentido então, diante dessas reflexões, que a escola ainda queira compartimentar ou homogeneizar os/as seus alunos/as para que sejam aquilo que ela acha que é “certo”. A escola precisa compreender a diversidade e deixar os seus “achismos”, pois, embora ela fabrica sujeitos que a sociedade legitima, ela não pode ( embora instale) ,construir as maneiras que o outro é  no que se refere à pluralidade.

Artigo publicado no dia 15 de junho de 2012, no jornal Diário da Manhã na seção Opinião Pública.

 

Clodoaldo Ferreira Fernandes, professor de Língua Portuguesa no ensino
médio do Estado de Goiás. Mestrando Interdisciplinar em Educação, Linguagens
e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás.

E-mail: aldoff25@hotmail.com

 




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