Comunicação

04 de fevereiro de 2013 | 22:21

Ensino de tempo integral sim, com respeito aos trabalhadores e aos estudantes

O artigo “Lyceu: em tempo integral”, do jornalista Carlos Alberto Santa Cruz, publicado na edição de sexta-feira (1), do jornal Diário da Manhã, faz afirmações equivocadas a respeito do posicionamento do Sintego em relação à proposta.

Ao nobre articulista que fez tais afirmações e à sociedade, alguns esclarecimentos: a iniciativa não “parece estar sendo feita às escondidas”, mas foi feita sem diálogo com a categoria, que está sofrendo com falta de informações, transferência de unidade, pressão psicológica, perseguição e insegurança; sem discussão com o Conselho Estadual de Educação, órgão responsável pela normatização, consulta e fiscalização do Sistema Estadual de Ensino em assuntos de natureza educacional; sem consideração com os estudantes das escolas escolhidas para serem o embrião do projeto e foram obrigados a mudar de escola ou porque trabalham e não podem estudar o dia todo ou estudam à noite e o período noturno foi extinto da unidade. 

Ao contrário do que afirma o articulista, o Sintego reafirma que não é contra o ensino de tempo integral. Pelo contrário, sempre defendeu e lutou para que os estudantes passem mais tempo na escola, mas numa escola estruturada física e pedagogicamente, onde o estudante pode contar com professores e funcionários em número suficiente para atender a suas necessidades; dedicação exclusiva para todos os trabalhadores da unidade, com oportunidades para a formação específica e continuada que possibilitem a concretização do projeto; atividades atrativas que envolvam os estudantes; espaço para descanso e lazer; preparação para o trabalho; gestão democrática e um Projeto Político Pedagógico que direcione os objetivos pretendidos estabelecendo parâmetros e ações no curto, médio e longo prazos, como previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

Portanto, o Sintego não está “metendo a colher de pau no ensino de tempo integral”, mas exercendo seu dever constitucional de defender a categoria que representa, e entende que, antes de enaltecer e abraçar um projeto que é só retórica como redentor da educação pública goiana, é preciso esclarecer alguns pontos que, sob a perspectiva do processo ensino/aprendizagem, lançam a proposta num emaranhado de dúvida e obscuridade sobre a sua real eficácia na resolução dos problemas.

1º) Ensino de tempo integral diz respeito a toda a comunidade escolar formada por estudantes, pais, professores e funcionários administrativos, condutores do processo educacional, que precisam e devem estar envolvidos no projeto e não serem apenas o seu executor, como mais uma vez está fazendo a Seduc, que importou a ideia de uma realidade diferente e se negou a discutir com os atores principais das localidades onde será implantado;

2º) Atualmente, em todo o Estado, 120 escolas da rede funcionam em regime de tempo integral e enfrentam problemas. Para citar apenas dois, falta de estrutura (há unidades que não têm nem bebedouro, nem refeitório) e o encerramento às 15h30, como são do ensino fundamental, a redução do horário causa problemas aos pais que não têm como buscar os filhos, no meio da tarde. Sem as condições estruturais, como oferecer uma realidade diferente? 

3º) A Constituição Federal é clara quando diz que a Educação é um direito de todos e dever do Estado, mas, como na Saúde, o governo quer transferir a responsabilidade para a iniciativa privada, sob a alcunha de parceria. Com quais objetivos? Como será feita essa parceria com a inciativa privada? E o gerenciamento? A partir das parcerias, empresários passarão a dirigir as escolas no lugar de professores? E delegar a diretores a captação de parceiros? São vários os questionamentos, mas nenhuma resposta. 

4º) A Constituição Federal é clara também quando diz que o Estado é obrigado a ofertar o ensino noturno regular, adequado às condições do educando. Pelo projeto da Seduc, o turno noturno será eliminado. Para onde vão esses alunos?

5º) A reforma nas escolas tem sido superficial. O que se tem visto é apenas uma maquiagem, como se uma demão de tinta fosse suficiente para resolver o problema de falta de estrutura física dessas unidades. Em algumas escolas, a reforma não será concluída a tempo de receber os estudantes e as obras precisarão continuar, mesmo com as aulas em curso. Mais um desconforto para alunos e trabalhadores, o que mostra o desprezo do governo na implementação do projeto. 

Há outras questões administrativas que não foram discutidas com a categoria, como a carga-horária dos professores e servidores administrativos, a modulação dos profissionais que não puderem permanecer nas escolas e os critérios que definirão o perfil dos professores e funcionários que desempenharão funções nessas unidades. Tudo parece simples para aqueles que desconhecem a realidade da escola, mas não é.

Repetindo, são muitos os questionamentos e nenhuma resposta, porque não houve e não está havendo por parte da Secretaria Estadual de Educação o menor interesse em debater profundamente e muito menos acatar as sugestões feitas para minimizar os impactos negativos da implementação do projeto de Educação em tempo integral que pretende adotar, traindo, mais uma vez a confiança da sociedade e dos trabalhadores que esperam por iniciativas sérias que realmente ataquem e eliminem os problemas que impedem o pleno desenvolvimento educacional do Estado.

O Sintego não é contra o ensino em tempo integral. Pelo contrário: esta é uma de nossas bandeiras de luta e, também, uma das 20 metas do Plano Nacional de Educação. Entendemos que a escola em tempo integral é um tema que precisa ser amplamente discutido com comunidade escolar e com urgência. Iremos passar das “sandálias” sim, jornalista, porque é de nossa responsabilidade, como trabalhadores da educação de Goiás, lutar sempre e cobrar por uma educação pública de qualidade e por melhores condições de trabalho para os profissionais. 

 

Iêda Leal - Presidenta do Sintego




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